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O Palácio e Quinta do Alfeite foram adaptados às dependências do Novo Arsenal da Marinha.

No Palácio de Caxias instalou-se o Quartel do Campo Entrincheirado e a Quinta está arrendada.

Os únicos que ainda conservam vestígios de residências régias são o Paço de Sintra e o Castelo da Pena, transformados em Museus Nacionais, assim como o Palácio de Mafra.

A Cidadela de Cascais, a favorita residência de verão de D. Carlos, foi por assim dizer destroçada e só restam nas paredes sombras dos belos quadros, armas e preciosidades que a guarneciam.

O Palácio de Queluz, não longe do abandôno, não demorará muito que o vejamos tornado num montão de destroços.

Actualmente destinado a um museu sem importância, nem valor algum histórico, que directamente tenha relação com o Palácio, o que nêle se encontra exposto, é devido ao zêlo do Dr. Custódio José Vieira, Inspector dos ex-Paços Reais, que tal conseguiu e pôde salvar, retirando-o da Cidadela de Cascais. É ainda a êle e ao Sr. José Calazans da Silva e Sousa, actual administrador do Palácio e digno sucessor do almoxarife João Crisóstomo, que cabe o grande cuidado pela conservação e aceio que se denota nas salas que se patenteiam ao público, sendo os primeiros a lamentar o estado misero a que tudo chegou, empregando o máximo cuidado, carinho e boa vontade, para conservar e sustar nos limites do possível, o momento desolador em que tudo e para sempre só sejam ruinas.

As salas do Palácio eram tôdas devidamente armadas sempre que a Família Real o ia habitar. Do tesouro das Necessidades e Ajuda iam tapeçarias, cortinados e mais ornatos precisos para se armar o Paço. Eram ricas sedas,

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DR. CUSTODIO JOSÉ VIEIRA, NA SALA DO TOUCADOR

TO VIMU

damascos que cobriam as paredes; nas portas e janelas belos reposteiros e sanefas em veludo e outros tecidos valiosos; o pavimento das salas coberto de preciosas alcatifas e de lindos móveis, emfim, ninguém dirá hoje o que foi então o famoso Palácio. Para avaliarmos a sua grandeza, principiaremos por descrever o recheio das salas no ano de 1761.

No Arquivo de Santa Luzia guarda-se um grande livro (Livro A da Comissão do Tombo), que é o primeiro inventário do Palácio.

Deu origem a êsse inventário uma queixa apresentada pelo almoxarife Agostinho José Gomes ao Infante D. Pedro. O Paço estava entregue ao chaveiro e tapeceiro francês Jean Malher, que tinha a seu cuidado a conservação das salas.

Constando ao almoxarife que Malher fazia sair do Palácio bens que lhe não pertenciam, fez ver ao Infante o pouco cuidado com que eram administradas as suas riquezas, durante a sua ausência. Ordenou então D. Pedro que se fizesse um Inventário Geral de todos os seus bens em Queluz, encarregando o almoxarife de tal trabalho.

Jean Malher, indignado, não queria dar as chaves do Palácio, nem apresentar o que lhe era exigido pelo almoxarife, opondo mil dificuldades ao seguimento da inventariação. Mais de um ano levou Agostinho José Gomes para concluir o trabalho de que foi incumbido, originando depois êsse inventário uma interessante carta, que na sua devida altura se transcreverá.

O inventário que se vai transcrever é muito completo e por êle se poderá fazer uma ideia da riqueza das salas do Palácio.

Inventário de todos os bens móveis

que V. A. R. tem no seu Paço de Queluz

PRINCIPIA-SE PELO QUARTO NOVO DO ŁADO DIREITO DO PAÇO ANTIGO DENOMINADO BARRACA. COM AS CASAS NUMERADAS POR SUA ORDEM PARA MAIOR Inteligência das riquezas QUE NELAS CONSERVA

CAZA N.° I

Salla q. dizem hade cervir de corpo da guarda com a entrada pelo Patyo da parte Norte, a qual no interior da parte do Nacente tem hum quarto com seus armarios de madeyra grandes e embotidos nas paredes e mais duas Alcovas dentro no ditto quarto.

A mesma salla tem 80 palmos de comprido de Nacente ao Poente e 30 palmos de Largo.

Altura do fundamento até á Cimalha R. 18 palmos e o mesmo se entende das mais cazas que se seguem até á da muzica.

14 portas e janellas a saber:

5 ao Norte, 5 ao Sul, 2 a Leste, 2 a Este.

2 Candiheyros de vidro, com muito ornato, com algumas pessoas pintadas de varias cores, de 6 Lumes cada hum de 5 palmos de alto e 4 de largo.

1 Ditto mais da mesma forma.

CORREDOR

Que nase do Passo antigo o qual tem de comprido 75 palmos e 1211⁄2 de largo, com 12 portas e janellas, 5 de cada Lado do Norte a Sul e duas de Leste ao Este.

10 portas de cortinas de Nobreza verde goarnecidas da

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