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CAPÍTULO XI

CARTA DO ALMOXARIFE DO PALÁCIO DE QUELUZ
AGOSTINHO JOSÉ GOMES

A ANTÓNIO FELICIANO DE ANDRADE

Em um maço de papéis relativos à Casa do Infantado existente na Tôrre do Tombo, sem número, mas com a indicação que ficou, encontra-se como referente a Queluz, a carta do Almoxarife do Palácio, Agostinho José Gomes, para António Feliciano de Andrade, se refere ao Inventário dos Bens de D. Pedro em 1761.

Essa interessante carta, revestida com uma capa, tem os seguintes dizeres :

A carta incluza estava destinada para Antotonio Feliciano; mas como V. A. R. me fes a honra de me falar hontem nestas couzas, em que eu nunca falara a custa do meu trabalho por lhe não dar o minimo disgosto; e ahinda a ditta carta estivese em meu poder me rezolvo a pola na sua prezença: não me faltando nunca com o castigo meresido para a minha emenda.

Seu indigno criado

(a.) Agostinho Jozeph Gomes.

Resposta critica mas verdadeyra ás sem razoens de João Malher (1) ou para milhor dizer, João Molher, celebradas em 8 de Dezbr. de 1767.

A saber:

Dou a razão de tudo quanto pode ser motivo para a sua queyxa, segundo o que a experincia me tem mostrado: e prensepio.

Tem o Passo de Queluz vinte annos de hidade pouco mais ou menos, desde que S. A. R. lhe deu o ser; tempo em que se entregou a quem o fose criando pouco, a pouco: cujo Ayo, sem duvida, que em poucos annos lhe fes deytar hum agigantado corpo. Bem assim como os filhos Libertinos de ricos e nobilissimos progenitores, a quem senão refreyão os vissios, e se dá de mão as virtudes para ao depois sentirem o estimolo da emenda.

E como a má criação, não necessita de seculos para se invetterar, bem como o cancro, que em poucos tempos se apodera de hum corpo todo: e quando se lhe quer acodir, oh o enfermo hade gritar muito ao tocar-lhe no vivo das rayzes; oh seade deyxar pereser com o seu mal.

Por taes modos aquelle Palacio se foy criando; e por outro conceyto, como a robustra, e frondoza Arvore, que envejada dos seus domesticos vezinhos, segnificados na Era cilvestre; se abraçarão com ella de sorte, que ou a hande extinguir pouco, a pouco, ou o Sr. della lhe hade cortar aquelles laços, para tornar a Arvore ao seu arbitro ser. Que difficultoza empreza ? :

Todos os Politicos querem que a illeyção dos criados dos Princepes seja tão coalificada em virtudes corporaes como Espirituaes? Mas raras vezes susede acharemse

(1) João Malher era Tapeceiro francês e chaveiro do Palácio.

estas graças nos Palacianos: que por isso susedem mt.as dezordens, onde devião dimanar os acertos, para exemplar dos ignorantes. Porque os Princepes, não se distinguem somente na subordinação dos Vassalos, tão bem se devizão na comprehenção dos bons, ou mãos criados, que os cervem. E na falta do proprio conhecimento, supprem as obras de cada hum para o decernimento.

É pois. Entregue estava o intrinsico da quelle Palacio ao ditto Malher se bem podia com elle nas forças no entendimento tem mostrado a experiencia a sua fraqueza. Pois não he para Hercules Tebano, a sutil eloquencia do Solar de Mercurio.

E como quer que fose, S. A. R. ou mais ou menos informado da confuzão em que as suas requezas se achavão, me ordenou em Dezbr.o de 1761. que lhe inventariase tudo do interior do Palacio e corpo da quinta.

Agora Progunto?

Que mal fis eu a João Malher em gastar hum anno e hum mez, em lhe sofrer tantas afrontas e vituperios e demoras em medar o que não era seu? E no que pudera fazer em 30 dias, gastar 13 mezes por sua culpa? Dizeme homem, feste o Inventario algum mal para lhe rogares mais pragas do que tem de regras?

E meu amo e Sr. offendido da demora daquelle L.o, por ventura agraveyte quando lho dey em não dizer que tu he que tinhas a culpa da tardança? Em Fevereyro de 1764, me ordenou o mesmo Sr., que entregase a prata e roupa pertensente ás mezas ao seu coppeyro João Ribeyro; e no acto da entrega que mal te fis em te pedir conta das faltas que achey, para me dezacreditares tão barbaramente, que mt.o se admirou o mesmo João Ribeyro da minha prudencia.

Se te escandalizey no mesmo tempo asima em te pedir humas pessas de cobre que estavão em teu poder, e no de Antonio da Costa Taverneyro havia hū anno não o consentiras, como eu prezumo? E alem da tua culpa te queyxastes de mim a S. A. e eu, por compaichão tua ocultando a mayor, declarey a menor, que era de 180 pratos finos e ordinarios.

E vendo eu q. em 1762 faltavão 188 pratos de varias castas

e no de 1763..... 195

» no de 1764..... 208

»> no de 1765..... 133

»> no de 1766..... 59

»> no de 1767..... 116

Soma....... 899 fora das funçoens publicas; sabendo eu que todo o descaminho daquellas, e outras couzas previnha do teu gravissimo desgoverno, e pouco cuydado do que tinhas a teu cargo: pois basta que cada vês que eu hia a Queluz, via na cozinha huma porção de Louça fina e groça, como fazenda sem dono, gado sem Pastor: e o mesmo se descobria pello Passo, hum prato aquy com comer havia hum mez, e mais acolá outros sujos, com m.° limpos ; e que o mesmo sucedia aos vidros, e roupa quando a tinhas, não bastando as demonstraçoens que te dava por mim, e por outros, e ultimamente pello Abreu?

As cazas sujas, e porcas, sem nunca acabar de huma a outra vinda dos Senhores? - Pello que alcançando eu que aquellas dezordens não sesavão a modo de desfeyta, que se mefazia, me rezolvy no mez de Junho do prezente anno, a fexar em huma caza a louça e vidros (1) de donde

(1) Quando o Principe D. João, em 1807, foi para o Brazil, as louças e cristais preciosos que existiam no palácio, foram escondidas numas casas sôbre a Sala da Throno.

nada sahise sem conta fose para que meza fose; e na mesma forma seja em que tempo for, entregar qualquer meza a huma pessoa que possa dar conta della logo; e o mesmo se entende pella prata e roupa, para ver se dava em quem codilhava dois, e tres goardanapos, que faltavão cada dia daquelles, como tu Malher o confesastes m.as vezes? Pois, como agora mal dizes deste redicolo gover

neta...

Tu, e os mais, coatro annos me andarão quebrando a cabessa sobre todos, quererem cervir ás mezas mais honrozas, e os ordinarias ficarem ao dazamparo, e que o comer huns ficavão com tudo outros nada.

Sendo certo que eu te dise, aty, e aos mais, na prezença de Antonio Caetano, que todos tinhão peccado nas mesmas culpas, sem embargo de se chamarem dignorancia. Pello que rezolvy o seguinte papel.

Determinação das pessoas que hande cervir ás mezas dos Sr., de D. Lucas, Camaristas, e Goarda Roupas, neste Real Palacio de Queluz.

Á meza dos S.:

A saber:

As pessoas que hande conduzir as iguarias para a ditta meza cada hum com seu goardanapo, que pedirão ao Coppeyro ou aquem seu cargo tiver, são as seguintes:

Pedro Joseph, Manoel Caetano, João Malher, Agostinho Joseph, Caetano dos Santos, e seu filho: postas as iguarias na ditta meza, ficará somente nella cervindo P. Joseph e Manoel Caetano, até os Senhores se levantarem della tempo em que passarão para a meza de Estado.

Á meza de D. Lucas:

Giraldo Joseph e João Malher porão promptas as iguarias; depois do que tomará conta da ditta meza com tudo

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