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nunca pertenceram ao Palácio e vieram da Cidadela de Cascais.

Como indica a pintura do tecto, esta sala foi expressamente construída para os grandes concertos e festas do tempo do Infante D. Pedro, então conhecidas pelos «serenins», donde lhe vem o nome da «Sala das Serenatas».

Com a presença de tôda a côrte e, inútil será dizer, da Família Real (1), realizaram-se pomposas festas, em que se salientavam as filhas de El-Rei D. José e especialmente a Infanta D. Maria Francisca Benedita, discípula predilecta do notável músico David Perez (homem tão timorato, que desmaiou ao ver uma meia branca manchada de sangue...), tocando cravo, cantando, recitando, causando sempre a admiração dos assistentes; e o não menos célebre dançarino Pedro Colona, pasmava e envaidecia-se pela arte e delicadeza das suas reais discípulas, quando as notas convidativas dum minuete faziam movimentar os executantes, nos passos de tão fina e aristocrática dança.

Serviu esta sala também para Beija-Mão e aí se deu audiência ao Corpo Diplomático e Ministros Estrangeiros, no tempo do Príncipe Regente D. João, donde lhe vem o nome da «Sala dos Embaixadores».

Por fim, foi conhecida por «Sala dos Espelhos», devido ao grande número de espelhos que a enriquece e onde tôda a côrte se reflectia e olhava.

Hoje, esta magnífica sala, como as já descritas, despida de todas as preciosidades, esquece pela nossa incúria o fulgor da sua época.

E, continuando a relembrar o passado desta sala, por onde tão grandes personagens passaram, tais como El-Rei

(1) Palácio de Queluz. 2.o volume. Festas de S. João e S. Pedro.

D. José, a Rainha D. Mariana Vitória, suas filhas, a Princesa e mais tarde Rainha D. Maria I, as Infantas D. Mariana Josefa, D. Maria Francisca Doroteia, D. Maria Francisca Benedita, que foi Princesa do Brasil pelo seu casamento com o Príncipe D. José, seu sobrinho, filho do fundador dêste Palácio; o Príncipe D. João, que foi Rei, VI no nome, e a Princesa D. Carlota Joaquina, que foi Raínha; todos os seus filhos, entre êles D. António, que faleceu muito novo; D. Pedro, o imortal Duque de Bragança; o célebre Marquês de Pombal e as maiores notabilidades duma época de tanta tradição, ali se reüniram para assistir às sumptuosas festas promovidas pelo Infante D. Pedro, as quais tornaram o Palácio de Queluz, nesses tempos, o preferido de tôda a Família Real e côrte.

Nesta mesma sala foram armados Cavaleiros do Tosão de Ouro, Luís Pinto de Sousa Coutinho, Ministro do Príncipe Regente D. João, e o Marquês de Oira, Embaixador de Espanha; em grande audiência, nela foram recebidos os Falcões, enviados pelo Grão Mestre da Sagrada Ordem de Malta; nela, desde o ano de 1794, todos os Ministros Estrangeiros e Núncios Apostólicos entregaram as suas credenciais (1); no seu tempo, El-Rei D. Miguel aí deu várias audiências. Pelos baptisados dos filhos de D. João, armava-se um grande dossel, onde eram recebidos o Núncio Apostólico e o Cardial Patriarca; aí repousou por minu tos, numa pequena eça, o 1.° Imperador do Brasil; ¡e quanto mais se não passaria, no intrigante viver dos Paços! Tudo desapareceu, tudo morreu, e morta também está esta sala, se não houver mãos carinhosas que lhe acudam.

(1) Palácio de Queluz. 2.o volume. Audiências e funções na Côrte.

As primeiras reparações que se fizeram, foram no ano de 1782, reformando-se as pinturas, em que trabalharam António José, Manuel do Nascimento e Bento de Sousa.

Depois, em 1790, quando a Rainha mandou construir a parte alta do Palácio, fizeram-se importantes reparos, restaurando o pintor José António Narciso os painéis e outras pinturas, e sendo dourada de novo tôda a sala.

Em 1808, o General Junot tentou fazer várias modificações e dar-lhe todo o aspecto Imperial, para dela fazer a Sala do Trono para o Imperador.

Em 1820, o engenheiro António Francisco Rosa fez grandes reparações, sendo o trabalho de pasta restaurado e feito parte de novo por Maurício José; fizeram-se pinturas novas sob a direcção do mestre pintor André Monteiro da Cruz e outros artistas, como Manuel do Nascimento, Joaquim dos Santos e Januário António Machado, sendo raspadas várias telas e feitas novas pinturas.

No ano de 1846, devido a uma grande trovoada, inutilizaram-se as pinturas, e a água que entrou na sala destruíu tapeçarias e móveis, sendo todo o trabalho de restauração dirigido pelo capitão de engenharia Abreu.

Foram as últimas reparações que se fizeram nesta sala, e até hoje não tem sido devidamente cuidada, correndo o risco, como as outras do Palácio, de ruína completa.

O piso apresenta desnivelamentos, ornatos caídos e outros arrancados, ratados e pôdres. O pavimento superior, onde outrora foram os aposentos de El-Rei D. João VI, e onde também existiu um rico oratório, devido ao péssimo estado dos soalhos, velhíssimos e cheios de buracos, deixa passar a água através dos painéis dos tectos, manchando as pinturas, descolando-as, destruindo-as por fim.

As païsagens chinesas pintadas nos espelhos desapareceram quási por completo, e estes, devido à acção do tempo

e humidade, têm perdido o aço, estando cheios de manchas e ennegrecidos. As serpentinas que sôbre êles existiam e que em parte ainda se conservam, estão tôdas partidas. Das cadeiras dos dosséis, que foram trabalhadas especialmente para esta sala por Silvestre de Faria Lobo, pintadas a branco e douradas, estofadas a sêda azul, mãos indignas e assassinas rasgaram, a ponta de canivete, e roubaram bocados de sêda. Tudo quanto guarnecia a sala, dali foi arrebatado; as talhas foram enriquecer outros palácios, conhecer outras salas, outros proprietários e mesmo outros países.

¡A magestosa sala acha-se deserta, nua de todo o seu esplendor, recordando uma época passada, de tanta pompa e etiqueta, dando-nos a visão de tempos que lá vão, tempos que nunca mais voltam, que outrora lhe deram alma, restando hoje só a glória do seu nome!

Sala do Despacho

Também conhecida pela «Sala do Conselho», no tempo do Príncipe D. João; segue à Sala dos Embaixadores.

É sôbre o comprido. As paredes, com grandes painéis, figuram ruínas e, no tecto, a todo o comprimento, um painel representa o «Decorrer do Tempo», pintado em 1790 por José António Narciso.

Como pintores, trabalharam nas salas desta galeria, que se prolonga até à D. Quixote, António Berardi, Manuel da Costa, Francisco de Melo e Manuel do Nascimento, sob a direcção do pintor João de Freitas Leitão, pintando várias telas, não só para esta sala como para a chamada das Merendas e D. Quixote. Segundo a opinião de várias pessoas que consultámos, as telas desta sala não foram pintadas por artistas nacionais, mas sim vindas de Itália.

Ao fundo existiam duas janelas, que foram mascaradas

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