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rém persistente, caminha sempre na estrada do commercio, da industria, e do progresso.

Jamais deixou de abrir sua bolsa para enxugar as lagrimas que resumão nos olhos dos indigentes; tem escripto seu nome no archivo das sociedades beneficentes do paiz; durante annos occupou o cargo de thesoureiro do hospicio de alienados, e o Instituto Historico conta-o entre seus membros.

XVII

ESTAÇÃO CENTRAL DA ESTRADA DE FERRO D. PEDRO II

Extenso como é o Brazil, dotado de riquezas naturaes, com um solo uberrimo em que tudo floresce e com pouco trabalho colhe o lavrador sazonado fructo; com planicies, valles e montes em perenne primavéra, adornados de vivaz e brilhante vegetação, marcando pedras preciosas os alveos dos rios, e as minas os vincos do terreno, só necessita de communicações rapidas, de uma população laboriosa e compacta para tornar-se o mais rico e o mais importante entre os florescentes estados do globo. Habitae essas illimitadas planicies, esses montes continuados, essas regiões longinquas, facilitae as communicações, devassae os desertos, uni por meio de estradas esses vales infinitos, fazei o sibilo da locomotiva ou o fumo do vapor atravessar as mattas, e o Brazil progredirá.

Não só as vias de communicação augmentão o commercio, a industria e patenteão a riqueza e a fertilidade do sólo, como tambem concorrem para manter a paz, a segurança publica, o respeito ás pessoas e aos bens ; e entre os systemas de communicação são preferiveis os caminhos de ferro que abrevião as distancias, approximão as localidades, trazem prompta e rapidamente aos centros commerciaes os productos de afastadas povoações, e facilitão o desenvolvimento

agricola e industrial; mas ha apenas quarenta e dous annos que se pensou introduzir no Brazil os caminhos de ferro.

Regressando da Europa em 1835 o marquez de Barbacena apresentou a idéa da construcção de uma estrada de ferro que, partindo do Rio de Janeiro se dirigisse á Minas, e até trouxe uma proposta da companhia da estrada de ferro de Durrham á Birmingham. O decreto do corpo legislativo de 31 de outubro de 1835 autorisou o governo a conceder á uma ou mais companhias, que emprehendessem a construcção de uma estrada de ferro na capital do Imperio ás provincias de Minas, Bahia e Rio Grande do Sul, carta de privilegio por quarenta annos; tres annos depois o decreto de 29 de outubro approvou differentes artigos da resolução da assembléa provincial de S. Paulo concedendo privilegio exclusivo para construcção de uma estrada de ferro na mesma provincia á Aguiar Viuva, Filhos e C. Ainda nesse anno publicou João Baptista Midosi os estatutos da companhia emprezaria das estradas de ferro nictherohyenses havendo obtido da assembléa provincial do Rio de Janeiro privilegio para a encorporação da companhia e estabelecimento das referidas estradas.

Em 1839 requereu o Dr. Thomaz Cochrane privilegio para um caminho de ferro do Rio de Janeiro a S. Paulo, e alcançou-o por oitenta annos em 4 de novembro de 1840; porém ateando-se pouco depois o facho da revolução nas provincias de Minas e S. Paulo, não realizou-se a empreza de Cochrane, que decorridos os quatro annos, teve de pagar a multa do contrato. Mais tarde allegou a força maior constante daquella revolução, e requereu renovação do contrato que obteve em 1849, sendo ministro do imperio o marquez de Monte Alegre, estipulando-se no novo contrato que ficavão dependentes da approvação do poder legislativo sómente as clausulas relativas á isenção dos direitos de importação para machinas e materiaes, e a garantia de juros de 5% por noventa annos.

Em 1851 encetou-se na camara dos deputados a discussão de um projecto approvando estas clausulas, porém cahio e foi substituido por outro dando ao governo o direito de conceder aquelles favores, não a Cochrane determinadamente, mas a qualquer que melhores condições offerecesse; e em 26 de junho de 1852 foi esse projecto sanccionado na lei que autorisou o governo a permittir á uma ou mais companhias a construcção total ou parcial de uma estrada de ferro

que principiando na côrte fosse terminar nos pontos mais convenientes das provincias de Minas e S. Paulo.

Apresentárão-se à concurrencia duas emprezas : uma de Teixeira Leite e outra do visconde de Barbacena com os orçamentos, planos e nivelamentos necessarios, e depois uma terceira de Theophilp Benedicto Ottoni compromettendo-se a fazer a estrada com o capital de 12,900:0005000; a prescindir da garantia de juros, entregando no fim de noventa annos a estrada e seu trem ao governo a encorporar uma companhia dentro de um anno, e se em dous annos depois não desse principio as obras, ou se em doze as não concluisse, pagaria a multa de 10:0005000; n'um ou n'outro caso marcar-lhe-hia o governo novo prazo para principiar on ultimar os trabalhos, comminando-lhe a multa de 6:0005000 por semestre, e imposta a multa no segundo semestre, ficaria nullo o contrato.

Porém nada se fez; considerava-se uma aspiração poetica ou extemporanea a idea de uma estrada de ferro no Brazil; era uma utopia, pensavão alguns; as estradas de ferro não são de ferro são de ouro, dizião alguns estadistas nossos; e em hesitações, duvidas e descrenças perdeu-se o tempo, privando-se o paiz desse meio prompto e rapido de transpor o espaço. Correu o tempo sem se votar a lei, set adjudicar a concessão e organisar-se a companhia, e após muitas contemporisações e delongas foi o negocio affecto á legação de Londres.

O ministro brazileiro nessa capital, o conselheiro Sergio Teixeira de Macedo, adjudicou a construcção da primeira secção da estrada a Eduardo Price por quantia fixa, reservando ao governo a faculdade de organisar companhia nacional, e em 9 de fevereiro de 1855 assignou

o contrato.

Ordenou o decreto de 9 de maio desse anno que a execução do contrato celebrado pelo ministro brazileiro em Londres para a factura de uma parte do caminho de ferro fosse commettida á uma companhia organisada nesta côrte; e outro decreto da mesma data approvou os estatutos da companhia da estrada de ferro D. Pedro II.

O decreto de 10 de julho daquelle anno autorison o governo a estabelecer o processo para a desapropriação dos predios e terrenos que fossem necessarios á construcção das obras e mais serviços pertencentes á estrada de ferro D. Pedro II, e as outras estradas do Bra

zil; bem assim a marcar as regras para a indemnisação dos proprietarios; o decreto de 27 de outubro sanccionou o regulamento para essas desapropriações.

Começárão as obras em meiado de 1855.

Determinou o decreto de 17 de março de 1856 que a companhia da estrada de ferro formasse um fundo de reserva derivado da renda, sem prejuizo dos 7% promettidos aos accionistas; havendo sido elevado o juro áquella taxa, porque tratando-se de formar a empreza, concedeu o governo á estrada de ferro da Bahia já projectada aquella garantia, o que impossibilitou a formação de qualquer empreza com garantia menor de 7 %.

Foi contratado, em 9 de julho de 1856 o norte-americano Garnett para primeiro engenheiro da estrada D. Pedro II, cujas obras caminhárão com celeridade; e desejando-se fazer uma experiencia, partirão em 13 de março de 1857, ás 10 horas da manhã, quatro ou cinco wagons com sessenta e tantos convidados, e em 35 minutos percorrerão 16 milhas desde a rua de S. Diogo até Nazareth, empregando-se apenas metade da força da machina; alli servio-se um esplendido almoço que terminou com brindes e vivas ao Imperador e a rainha da Inglaterra.

Sendo insufficiente a primeira emissão de 12,000:000,5000 para a construcção das duas secções, a primeira da côrte até Belém, a segunda de Belém até a barra do Pirahy, o governo autorisou a companhia, por decreto de 26 de agosto de 1857, a levantar por empres timo contrahido dentro ou fóra do Imperio, um terço do seu fundo social ou 12,666:6665666; esse emprestimo foi ajustado por contrato de 11 de fevereiro de 1858 entre o governo e a companhia.

Em 29 de março desse anno inaugurou-se a estrada de D. Pedro II, abrindo-se ao transito quatro quintas partes da primeira secção, isto é, o espaço de oito legoas da côrte até Queimados.

Muito antes da hora da festa, começou o povo a agglomerar-se na praça da Acclamação, nas ruas adjacentes e defronte do edificio da Estação Central, que estava elegantemente adornado, e circumdado de uma corrente de bicos de gaz para illuminal-o á noite.

Espelhos, lustres, cortinas, bandeiras, flores, tapetes e folhas aromaticas enfeitavão as salas do edificio repleto de convidados, que anciosos esperavão o começo da ceremonia, soltando enthusiasticas ac

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