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sofridas e pensando talvez «que seu pai estava a arder no inferno e que ela própria estava condenada às chamas, os

nele e agradava-lhe a sua política anti-reaccionária, conservando sempre grande prestígio e autoridade no espírito da Rainha.

Emquanto Princesa nunca conseguiu que Frei Inácio fôsse viver no Palácio Real, mas depois da morte de El-Rei D. José abandonou a sua residência em Carnide e instalou-se nos aposentos que a Rainha lhe destinara.

A influência exercida nos espíritos fracos por aqueles que os maltratam é profundamente verdadeira.

Frei Inácio era anti-jesuítico e a Rainha consagrava-lhe a maior veneração, tinha-lhe um grande respeito; tratava-a mal, assim como às beatas da côrte e a Rainha tinha por êle a mesma veneração que aos santós ou aos mártires; era odiado por todos, pela nobreza e próprio clero; não favorecia as tendências devotas da Raínha, repreendendo-a ásperamente pelo exagero das suas devoções, e era tal a influência que Fr. Inácio exercia no espírito da Raínha, que lhe perdoava, o ouvia, o atendia e em tudo lhe dava apoio e fôrça contra todos.

A 29 de Novembro de 1788 morreu Frei Inácio no Palácio de Queluz, num período em que várias desgraças de família traziam muito abaladas as fôrças da Raínha.

Dizem que uns sicários assalariados por cortesãos, que o não podiam ver pela forma altiva com que êle os tratava, o esperaram em Queluz, quando a côrte ali se encontrava e num sítio chamado a Matinha, onde costumava ir descançar, armados de sacos de areia, o moeram de tal forma, que foi encontrado naquele sítio sem fala e depois conduzido para o Palácio, onde sucumbiu. Correu esta notícia, mas não é verdadeira. Frei Inácio morreu com 68 anos, dum ataque apoplético. Na noite de 23 para 24 de Novembro começou a sentir-se doente, recolhendo aos seus aposentos, que lhe estavam destinados no Palácio de Queluz, onde vivia a Raínha, que, sabedora do estado do seu confessor, deu ordens para que nada lhe faltasse e se tratasse da sua cura. Mandando chamar Fr. Bernardo de N. Sr. do Carmo confiou-lhe as suas ultimas disposições. Foi-lhe administrado o Santíssimo Sacramento, pedindo perdão à Raínha e a seus irmãos religiosos.

Durante os dias que esteve doente foi tratado pelos seguintes mé

vagalhões sanguinários da revolução francesa, muito fraca e beata, enlouqueceu».

dicos: Manuel de Morais, Joaquim Xavier da Silva, José Martins da Cunha Pessoa, João da Cunha, e pelos cirurgiões Domingos Carvalho Queiroga, Manuel Constâncio, Paulo de Faria e António de Almeida.

Os funerais foram feitos por decreto da Raínha, com a maior pompa. O quarto onde faleceu foi armado em câmara ardente, o corpo embalsemado e encerrado num caixão de madeira do Brasil forrado de tafetá guarnecido de galão, com uma cruz de lhama, com 10 argolas de latão, duas fechaduras e todo cravejado de cravo dourado. Foi com paramento pontifical, tunicela, dalmática de tafetá, casula, estola e manipolo, de chamalote, cálidos e sendalhas do mesmo tecido, amito, alva e símbolo, levou um crucifixo na mão, luvas, anel, cruz peitoral e mitra, e um lençol e travesseiro de tafetá preto. Para suspender o corpo foram feitas três toalhas de bretanha. As vísceras metidas numa talha da Índia e esta encerrada numa caixa de veludo preto, com galões, e cravejada de pregaria dourada.

Antes de se fechar o caixão a Rainha visitou o corpo, fazendo oração. Disseram-se missas de corpo presente, ordenando a Rainha que fôssem ditas mil missas por sua alma, dando de esmola por cada 240 réis.

Na capela do Palácio foi dita uma missa, a que assistiu muita nobreza e povo, e fizeram-se exéquias, onde tocou a música da câmara da Rainha.

O cortejo saíu de Queluz com numeroso acompanhamento, onde ia representado todo o clero, empunhando tochas, seguindo para a igreja do convento de Carnide, onde se cantaram os nocturnos de ofício de corpo presente.

A Rainha comprou todos os legados de Fr. Inácio, entre outros uma caixa com brilhantes que deixou à superiora do Mosteiro da Visitação de Santa Maria, por 4.000 000 réis; a Fr. Bernardo de Nossa Senhora do Carmo foi entregue o valor de uma cruz de esmeraldas e brilhantes avaliada em 550 000 réis e outra de camafeus e brilhantes por 480 000 réis e mais uma esmeralda quadrada em um anel com um círculo de brilhantes, avaliada em 153 000 réis. A Rainha, mesmo

Em Queluz assistia com freqüência às festas religiosas na capela onde se agremiavam insignes artistas, que, segundo diz Beckford nas suas memórias, era a primeira orquestra da Europa; assistia também às serenatas, à ópera, às merendas e às festas de S. João e S. Pedro, que, a-pesar-de não terem o mesmo brilho do tempo de D. Pedro III, eram ainda magníficas.

No ano de 1791 a Rainha principiou a sofrer da cabeça. Foi sangrada no ano seguinte e indo depois para Salvaterra, em princípios de Fevereiro, teve um novo ataque que fez decidir os médicos a outra sangria; mais tarde, ao sair do teatro, onde se representava A Nina de Paisiello, deu provas de estar alienada de todo.

Quando, em 1792, a Raínha foi passar o verão a Queluz, já estava louca. Neste Palácio, que vira a graciosa Princesa na sua mocidade, cantando nos serenins, tocando ao lado do seu mestre, o célebre napolitano David Perez, dançando com gentileza, conversando com afabilidade, educando seus filhos, amando seu marido, rodeada da sua côrte, que muito a estimava, apresentando-se com magestade imperiosa, e que, sem ser bela, era atraente, esbelta, sorridente, afável, com todos conversava, a todos se dirigia e a todos agradava, passeava agora a sombra do que fôra. Foi uma distinta figura de mulher, uma brilhante figura de Rainha.

Depois da morte de seu marido, D. Pedro III, já Queluz a viu triste, sempre preocupada, passando dias fechada nos

depois de Fr. Inácio morto, quis conservar a memória de seu confessor espiritual.

(Caixa 37, ano de 1788, 4.o trimestre, Arquivo de Santa Luzia, Epitome da vida do reverendíssimo D. Frei Inácio de S. Caetano, Espólio Arcebispo inquisidor geral, Livro U. L.).

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seus aposentos, entregue a rezas, pedindo a Deus perdão para os seus e para ela, se alguma culpa tinha em tais pecados. Mil desgostos, mil contrariedades, que pouco a pouco lhe roubam a razão e a existência da vida por completo.

Outròra atravessava as salas do Palácio, alegre, feliz, pelo braço do espôso, seguida dos filhos; agora, só, triste, com a cabeça baixa, os olhos fitos no chão, como que procurando vestígios por onde passaram os entes queridos, marido e filho, que dormem o sono eterno, e da filha, longe da sua Pátria. A vida da Rainha é de uma mártir; passado um ano é alheia a tudo; nervosa, inquieta, não se sente bem em lugar nenhum, aperta a cabeça, cerra as mãos como se uma violenta dôr a atormentasse, chora, ri, grita, e a pobre Rainha é levada para os seus aposentos sem sentidos.

Quando, em 1794, a côrte vai fixar residência em Queluz, as salas já a não tornam a ver. A loucura da Rainha suprimiu-a para a vida que lhe foi creada, para a vida da côrte, para o mundo e para a nação. Vai reabitar o seu palacete e aí permanece treze anos. Passa uns dias melhores, outros gritando, rasgando as suas vestes, rebolando-se no chão, sempre rodeada de médicos, das damas, camareiras, açafatas, que a acariciam e lhe obedecem em tudo.

Seu filho, o Príncipe Regente D. João, visita-a freqüentes vezes. Nos seus melhores momentos conhece todos, conversa com tino e vai passear na quinta na cadeirinha que seu filho lhe mandara fazer em Paris.

Chega Novembro de 1807. No Palácio ninguém se entende. Só se ouve clamar, os franceses, os franceses. A Família Real decide partir para o Rio de Janeiro. A Côrte que estava em Mafra reune-se em Queluz onde só

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