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um grande portão de ferro sob o qual fàcilmente passava o maior coche.

Fronteiro ao portão abria-se uma porta para a chamada Sala Vaga, de pouca importância, que comunicava com a porta central desta sala, tendo de cada lado três outras e, nas paredes extrêmas, mais três em cada face, sendo a do meio formada por um arco grande. Sete janelas, correspondentes às sete portas, deitam para o Jardim de Malta, sendo a central formada em arco.

Dezasseis pilastras, assentes sôbre as respectivas bases e alternando com os rasgamentos das portas e janelas, suportam conjuntamente com o coroamento dos quatro arcos a cimalha desta grandiosa sala.

Sôbre as portas baixas, e metidas em preciosos ornatos de talha, estão pintados festões de flores, e, sôbre as janelas, bandeiras de vidro, também guarnecidas com talha. Os cantos, formados por duas pilastras cada um, remaem sátiros, meio corpo, sustendo a cimalha com um braço.

Portas, pilastras, janelas e paredes são de espelhos tam guarnecidos, e pende sôbre êles magnífica obra de talha.

Aos lados das portas e janelas, estavam suspensas serpentinas de três luzes de fino cristal, e, pendendo do tecto, cinco lustres preciosos, um ao centro e quatro nos ângulos.

O tecto era abaülado e, ao meio, em forma de cúpula. Sobre o Dossel havia três telas, duas nos cantos e uma ao centro, metidas em molduras de fina talha, que representam a Fé, o Sol, e a Esperança, correspondendo-lhe na outra extremidade a Guerra, a Justiça e a Caridade; -nas partes laterais, três em cada lado representam figuras de Anjos com Cordeiros e, nos extremos da cúpula, duas fantasias.

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Tôdas as telas e ornamentos são emmoldurados com

obra de talha, feita por artistas portugueses sob a direção de Silvestre de Faria Lobo, onde trabalharam os mestres José Caetano do Pilar e Joaquim António, - figuristas; Leonardo Peruxe, - imaginário; - Manuel José Sequeira, Crespim Luís de Mendonça, João António, Francisco António de Araújo e outros entalhadores.

Como pintores, sob a direcção de João de Freitas Leitão, trabalharam Manuel da Costa, António Berardi, Jacinto dos Santos, Manuel do Nascimento, Joaquim José, José Vitorino, João Pereira Piolho e Manuel Ferreira, que pintaram igualmente outras telas para diversas dependências do Palácio.

Tôda a obra de talha foi dourada por Crespim dos Santos, e mais tarde, em 1808, quando o célebre general Junot governava em Portugal, tentou fazer várias modificações nas pinturas dos tectos (obra que nunca chegou a realizar), mandando pintar esta sala de branco, porque o seu Senhor, Rei e Amo, o Grande Napoleão, não gostava de muitos dourados, e assim ficou para recordação da passagem dos franceses por Queluz (1).

O chão é todo de tijolo, e, antigamente, fôra revestido com ricas alcatifas e tapetes. Das portas e janelas pendiam reposteiros de damasco amarelo bordados a ouro e bambinelas em talha dourada. Em 1806, foi armada com reposteiros de seda azul clara, pelo mestre armador João Pedro Alexandrino Nunes e, em 1831, novamente armada de damasco carmezim. Primitivamente serviu esta sala para as grandes reüniões e festas no tempo do Infante D. Pedro, e só mais tarde foi transformada em <«<Sala do Dossel».

(1) Palácio de Queluz. 2.o volume. O Palácio de Queluz du rante a Invasão francesa.

Nos meses que a Familia Real passava em Queluz, então residência de campo, não se davam audiências oficiais no Palácio por não estar preparado para tal fim. Algumas no entanto se efectuaram, sendo em 1782 recebido com tôda a solenidade o Arcebispo de Tiro, Vicente Rannuzi, Núncio Apostólico, devendo ter sido a primeira audiência solene, que se realizou no Palácio de Queluz (1). Muitas outras se realizaram no tempo da Rainha Senhora D. Maria I e de El-Rei D. Pedro III, e desde 1795, quando residência oficial da Côrte, o Principe Regente D. João ali recebeu todos os Ministros Plenipotenciários, e deu Beija-Mão e outros actos oficiais em nome da Rainha, sua mãe, que a loucura afastou e obrigou a desaparecer (2).

Em Outubro de 1799, o Príncipe Regente mandou fazer um rico dossel para substituir o que então existia (3).

O dossel era todo trabalhado com primorosa obra de talha, feito sob a direcção do mestre Francisco Joaquim dos Santos, e tôda a obra de talha, dourada pelo mestre dourador José Pereira (4).

Colocado no seu respectivo lugar ao fundo da sala com frente para a «Casa da Música» e armado pelo mestre João Pedro Alexandrino Nunes, com Damascos e Sedas

(1) Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo. Funções na Côrte e Ministros Estrangeiros. Livro III. II. Série. 1780-1785. Primeira audiência ao Arcebispo de Tiro, Núncio de Sua Santidade, no Real Paço de Queluz no dia 4 de Novembro de 1782.

(2) Palácio de Queluz. 2.o volume. A Côrte em Queluz.

(3) Arquivo de Santa Joana. Ano de 1800. Conta de hum Docel grande e hum pequeno, em Madeira com seus Ornatos de Talha e Escoltura, para o Serenissimo Principe Regente N. Sr., os quaes são para o Real Palacio de Queluz.

(4) Este dossel ainda hoje existe numas arrecadações do palácio e figura nos inventários.

azul, encarnada e branca, bordado a ouro, com franjas e grandes borlas também de ouro e prata, obra do serigueiro José Tomás Rodrigues. As partes laterais do dossel eram formadas por grandes apanhados de damasco encarnado, assim como o fundo, tendo ao centro, suspenso por dois cordões de fino ouro, o escudo das armas reais sustido por dois dragões e arrematado por um grande laço, tudo de talha dourada. Este escudo já existia no antigo dossel, feito pelo entalhador Silvestre de Faria Lobo, no ano de 1787, e oferecido à Rainha Senhora D. Maria I.

O dossel era cingido por uma grande corôa, amparada por dois anjos, trabalho do mestre escultor José Coutinho.

O mestre entalhador Tomás de Aquino fez sete cadeiras imperiais, com grande obra de talha em madeira do Brasil, douradas por José Pereira, as quais ostentavam na parte superior do espaldar as armas reais em relêvo, suspensas por dois anjinhos. Foram estofadas em sêda azul claro e franjas de ouro, por Manuel Joaquim Cordeiro. Para resguardo destas cadeiras, que mais tarde seguiram para o Rio de Janeiro, foram feitas sete caixas, forradas de veludo carmesim (1).

(1) Arquivo de Santa Luzia. - Caixa n.o 66. — Ano de 1800. Rezumo Geral de todas as Contas, pertencentes aos Doceis e Cadeiras q se fizerão, para as Cazas Grandes do Paço de Queluz em o prezente anno de 1800:

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O trono tinha dois degraus largos e o chão era atapetado com alcatifa de veludo encarnado. Ao fundo, e nos degraus, duas grandes talhas da Índia com cabeças de dragões e cobras em relêvo, brancas e douradas, e outras duas de maiores dimensões, mais para os lados do trono, sôbre pedestais de talha dourada.

Por vezes esteve armada em capela: por ocasião dos baptisados do Príncipe D. António, do Infante D. Pedro, depois Rei IV no nome e 1.° Imperador do Brasil, do Infante D. Miguel e da Infanta D. Maria de Assunção (1).

Para estas grandes solenidades, ornamentava-se esta sala com ricos damascos e sedas, transformando-se em corpo de igreja, e a sala que se segue, da Música, em capela-mór.

Pelas várias scenas que na mesma se passaram e com fins perfeitamente opostos, merece um momento de atenção, visto estes oferecerem elementos para bem definir a sua história.

Era nela que tinham lugar as grandes recepções oficiais,

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«Forão feitos 2 Duceis, hum para Beija-Mão do Principe Sr. D. João e outro para a Princêsa N. Sr.'. Parte das Sedas vierão do thezouro qvae para a conta do Principe Sr. D. João N. Sr. As sedas recebidas constão de Damascos Cramezim de ouro e seda fina azul e branca, q destinam para as cadeiras dos Duceis. Todas as despezas são por conta da C. do Infantado».

(1) Palácio de Queluz.-2.o Volume.-Filhos d'El-Rei D. João VI e da Rainha Senhora D. Carlota Joaquina.

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