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CAPÍTULO XIX

NOTAS FINAIS

Queluz morreu

Com o embarque da família real para o Brazil, o Palácio de Queluz ficou abandonado. Todo o seu precioso recheio, móveis, louças, tapeçarias (1), etc., foi para o Brazil, onde tanta preciosidade ficou. Depois de 1834, o que ainda restava de valor foi para os Palácios da Ajuda, Necessidades, Cintra e outros, por ordem do Duque de Bragança e de D. Fernando.

¡Muita preciosidade desapareceu!...

Primeiramente os franceses capitaneados por Geouffre, depois... fomos nós, que completamos a sua derrocada!... O Palácio de Queluz não tem hoje nada que lhe per

tencesse.

Em 1762, o Almoxarife do Palácio, Agostinho José Gomes, fez o inventário de todos os bens que o Infante D. Pedro tinha no seu Palácio em Queluz. Este inventário já vem transcrito neste volume. Depois de 1762, só em

(1) O corredor que liga a Sala da Tocha com a parte alta do Palácio e Sala dos Embaixadores, é forrado, uma parte com lambris de azulejos e outra com três panos pintados. O pano fronteiro à Sala, é a todo o comprimento da parede; os outros dois ficam entre as portas, representam uma caçada aos javalís.

1807 foi feita nova relação e esta incompleta, porque, o desembargador Jacinto António Nobre Pereira, encarregado de inventariar todos os bens do Palácio, no segundo dia da diligência encontrou fechadas e lacradas as portas por ordem do Govêrno Militar Francês e, para não perder o tempo descreveu todo o trem de lavoura.

No mesmo ano, em 1807, o Almoxarife do Palácio, João Crisóstomo, encarregou o desembargador António Xavier da Costa Sameiro, de inventariar os móveis do Palácio. Por doença, foi substituído pelo desembargador Pedro Duarte da Silva, que fez de corregedor do cível da côrte. No dia imediato, o Môço da Câmera, Joaquim Plácido Franco Bravo, que estava de serviço no Paço, foi intimado pelo célebre M. Geouffre e pelo filho do Conde de Novion, a entregar-lhe o Paço, fechando e selando todas as portas.

Estes dois inventários feitos na mesma ocasião ficaram incompletos, e não nos dão elementos suficientes, para fazermos uma ideia do que seria o recheio das salas, antes e depois da família real partir para o Rio de Janeiro.

O Administrador do Palácio de Queluz, João Crisóstomo, que serviu os franceses com a maior repugnância, recebeu ordem da Regência, para mandar para o Palácio da Bemposta, tudo que tivesse de melhor para a residência do General em Chefe dos franceses.

No capitulo que reservamos num novo trabalho sôbre Queluz, especialmente sôbre os barbarismos praticados pelos franceses e onde se faz referência à passagem das tropas invasoras por aquele sitio, largamente nos referi

mos a um tal Geouffre, cunhado de Junot e um dos franceses que mais roubou o nosso país.

Mr. Geouffre, em Novembro de 1807, levou vária prata do Palácio de Queluz e outra que, estava em Caxias, e servia às merendas da família real, não teve tempo para embarcar e à fôrça foi entregue a Geouffre, o seguinte: sete flamengas grandes, quarenta e oito pratos lisos, uma bacia de lavar as mãos, duas salvas grandes e de relêvo, um galheteiro, uma caldeira, uma cafeteira, vinte colheres de chá, uma tenaz, duas salvas pequenas, uma bacia grande, duas bacias de retrete, um candieiro de velas, um sertum grande que ficou no Palácio de Belem e que pertencia ao de Queluz, e para tudo levar, até um conto de réis em moeda, que estava no cofre, para pagamento do pessoal. Mais tarde voltou novamente na companhia do General Laborde, levando um jogo de louça da Saxónia, roupas de cama e de mesa, móveis e tapeçarias que foram trsnsportados em 42 carros; por sua vez o General Laborde, levou para a residência de Junot, dez castiçais, dois faqueiros, cinco salvas e sete castiçais, que João Crisóstomo não queria entregar e se viu obrigado a ir buscar ao Palácio de Caxias.

De todos os roubos praticados se fez um inventário, pelo juiz executor, o desembargador Jacinto António Pereira Nobre. Durante muito tempo existiu êste inventário na Repartição de Wenceslau Bernardino Van Houton de Faria, na Casa do Infantado, assim o dizem vários documentos, não aparecendo hoje, depois de termos remechido quási todos os Arquivos.

Foi com a entrada dos franceses e a ida da família real para o Brazil, que o Palácio de Queluz principiou ser desbaratado.

Mr. Geouffre, não levou mais porque, certamente, não

Do Palácio de Queluz, foram muitos móveis para a Bemposta, principalmente quando Junot esperava sua esposa e o Imperador. Grande número de móveis e outras preciosidades, já iam a caminho do Brazil, outras ficaram no cais de Belém. Dos inúmeros barcos que ficaram e espe ravam ordem de seguir para o Rio de Janeiro, uns pertencentes à Casa Real, outros a particulares, carregados de fardos, malas, móveis, de tudo tomou posse Mr. Geouffre, tudo roubou (1). O que êsses barcos continham, ignora-se, mas mais tarde foi-se encontrar espalhado pelas residências dos Generais e outros oficiais, tapeçarias, cortinas de damasco, alcatifas, móveis, etc. Mas quanta preciosidade não foi nas bagagens, quanta riquesa não desapareceu?...... (2).

Ainda Mr. Geouffre se apossou de muitos caixotes que estavam no Palácio das Necessidades e noutros, onde se

depositava tudo para ir para o Brazil.

No ano de 1809, em Fevereiro, 77 caixotes saíram do Palácio de Queluz, para o tesouro das Necessidades a fim de embarcarem e seguirem para o Brazil. Alguns foram na Charrua Príncipe Real, outros na Serpente, Fragata Carlota, navios Boa Fortuna e Destemido.

(1) Geoffroy Saint-Hilaire em Lisboa, por Pedro de Azevedo, pág. 10.

com

(2) Tôrre do Tombo, Ministério do Reino, maço 279. Nêste documento assinado por João Diogo de Barros Leitão e Carvalhosa, diz que Jeoffre (o seu verdadeiro nome é Geouffre), força armada, no dia seguinte à chegada dos franceses, se assenhoreou dos Palácios de Belém, Queluz e Necessidades, pondo sêlos nas portas, etc.; segundo os Inventários transcritos vê-se, que só depois de 4 de Dezembro de 1807, é que o Palácio de Queluz foi selado por ordem do Governo francês.

No trabalho sobre o Govêrno Militar Francês, vem esta notícia largamente descrita.

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