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dito, e se publicou em tempos longinquos, em várias revistas e jornais, a todos os momentos apresenta contradições.

Queluz, por si, nada oferece que prenda a atenção, a não ser o Palácio com belos e soberbos jardins, que, embora já não tenham a magnificência da época decorrida, ainda bem imprimem a magestade e grandeza de tempos idos.

No verão de 1920, ali permaneci uma temporada, tendo ocasião de confraternizar, entre outros, com o General António Costa, velho camarada e amigo de meu pai, passando-se belos bocados, falando-se por vezes «no Queluz», seu Palácio, citando-se várias versões que correm mundo, bem como muitas anedotas palacianas, algumas meramente fantásticas, que eram ditas com espírito e muita delicadeza.

De tanto ouvir, surgiu-me o desejo, que já ia embalando, de conhecer tudo referente a Queluz.

¿ Quem mandaria, -e qual o motivo por que fôra escolhida aquela baixa de terreno sem atracção alguma -, amontoar com tanta arte e grandeza, enormes blocos de cantaria, fazendo construir tão considerável edificio, mais tarde destinado a habitação régia, e onde se diz terem ocorrido scenas análogas às das célebres lendas de Guilherme de la Marche, o herdeiro

de Ardennes, que recordam o Redgauntlet de Walter Scott. O que haveria nelas de verdadeiro?

¿Como recompor, para formular uma idea, o que seriam as faustosas recepções oficiais, os serenins e as tão faladas festas pelo S. João e S. Pedro, realizadas naqueles jardins?

نا

Quem delinearia e tomara a direcção de tão importante obra de estética admirável, quais os arquitectos que dela se encarregaram, o dispendido com a sua construção, salários pagos a operários, etc.?

¿E que scenas de amor, de mistério, intrigas palacianas, conspiratas urdidas sob aqueles tectos, e, ainda, quantas lágrimas de dôr e torturas sofridas não presenciaram aquelas paredes?

O transformar pràticamente o meu desejo em realidade foi rápido, e para tal iniciei as minhas investigações, procurando o melhor possível tomar conhecimento de todos os elementos, que me conduzissem ao fim a que me propuzera.

Comecei por ver o que já tinha visto, tratando de percorrer o mais que se acha vedado ao público; e consegui, devido à amabilidade do sr. João Calazans da Silva e Sousa, digno administrador do Palácio, que com a maior gentileza me proporcionou colher

dados tão minuciosos e reais, quanto possível, no que respeita ao edificio propriamente dito, salas, etc.

Tomei conhecimento do que descreve o erudito Marquês de Rezende nas suas Recordações Históricas de Queluz, publicadas no volume 12.° do Panorama, pena é não serem exactas as referências. O mesmo sucede com outra notícia inserta no Arquivo Pitoresco, em que se enumeram factos nunca sucedidos.

Do elevado número de livros, revistas e jornais que tive ocasião de examinar para tirar elementos referentes ao Palácio, cheguei ao convencimento, pela oposição e controvérsia manifesta entre uns e outros, de ser errónea a orientação que tomara, trazendo tal leitura, além de graves embaraços, o desânimo para prosseguir.

Seria mais um a errar, se não procedesse a uma rigorosa busca. Na Torre do Tombo, consultei variadíssimos documentos oficiais, muitos inéditos. Sendo ali despertada a minha atenção para de igual forma proceder no Arquivo de Santa Luzia, depois de obtida a precisa licença do Sr. Dr. Custódio José Vieira, tive ocasião de examinar grande número de preciosos elementos, e de consultar mais de 1300 caixas, contendo centenas de contas e processos diversos. Recorri

ainda às Bibliotecas Nacional, da Ajuda e da Academia das Sciências; aos Arquivos dos Ministérios da Guerra, Interior, Negócios Estrangeiros, Finanças e Obras Públicas, da Câmara Municipal, de Santa Joana, da Casa de Bragança, da Câmara Eclesiástica, das Paróquias de Cintra e Belas, etc. etc., e tantos outros, colhendo mais indicações, conseguindo alfim, depois de decorridos longos meses, englobar os elementos, que julguei bastantes, para compilar o trabalho, que apresento.

نا

E satisfará êle aos que o lerem? ¡O tempo o dirá!...

Fico animado que esta minha iniciativa vá estimular outrem a promover novas investigações, certamente com melhor orientação e mais completas, e a desenvolver a história daquelas depauperadas paredes, lançadas ao esquecimento e completo abandono.

Dar vida, evocar as glórias e as máguas que se enraizam naquele Palácio, é erguer das sombras a saudade do fausto, a delicadeza duma época de amor, tradição e história, é fazer — REVIVER QUELUZ.

14, Janeiro, 1924.

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